O modus operandi da arte é insondável. É assim que eu parafrasearia o comentário da Arielle (4º período, Letras, vesp.) após a exibição de “As Invasões Bárbaras”. Concordo com ela: é possível que não sejamos os mesmos ao sairmos de uma sala de exibição após um bom filme. Mas o que mudou em nós? Esse é o tipo de resposta que parece escapar a qualquer exame.
Sem pretensões de sondagem, mas pensando “nas bordas” da questão, vemos que o bom filme não é aquele que pretende ensinar alguma coisa a alguém. Remy não existe para nos dizer como devemos viver. Tal como Cabral em “Separações”, o protagonista de “As Invasões Bárbaras” não nos dá modelos de como ser pai, professor, amigo, cidadão, marido etc. Ele apenas, simples e ficcionalmente, é! Nós é que participamos desse seu ser ficcional e o atualizamos em nossa realidade pessoal. Esse é um momento possível (não necessariamente indispensável) do que entendo por “experiência estética”: a identificação entre o receptor (real) e o personagem (ficção) numa mesma zona de vivências. Isso explica, por exemplo, a repercussão catártica que o filme produziu em parte da plateia presente.
Outra característica que me parece funcionar como critério do bom filme é a ausência do final conciliador. Nesse ponto, a meu ver, “Invasões Bárbaras” deixa a desejar quando, ao final, praticamente todos os personagens ao redor de Remy parecem sofrer modificações drásticas que apontam para uma possível “redenção” em suas vidas. De que modo se explicaria então, só para ficarmos com dois exemplos, a presença apaziguada da ex-mulher de Remy a seu lado, rindo das memórias sexuais do ex-marido com duas de suas antigas amantes? E ainda: a adesão de Nathalie ao programa de recuperação do vício em heroína? Em suma: não vejo razão para a proximidade da morte do protagonista funcionar como um deus ex machina redentor.
Apesar da ressalva acima, “Invasões Bárbaras” é um filme que se sustém de pé por si mesmo. Delineia uma leitura conjuntural do século XX sob o viés da crise do pensamento e das utopias sem fazer do filme uma obra enfadonha, repleta de pernosticismos intelectualoides. O diretor Denys Arcand (aquele que aparece devolvendo o computador portátil de Sebastien, lembram?) é sensível na concepção das imagens (não posso deixar de mencionar o close no rosto da aluna na cena em que Remy diz que terá de afastar-se da universidade) e, ao contrário de seu filme anterior (“O declínio do império americano” do qual “As invasões bárbaras” é uma continuação), teve mais senso de medida na distribuição dos diálogos dos personagens.
Por fim, retorno ao ponto inicial fomentado pela intervenção de Arielle. O que muda, em nós, após a experiência estética? Insisto na ideia de que tais mudanças são insondáveis. Porém, a fala de cada um naquela manhã de sábado, aquilo que não foi dito mas foi pensado, aquilo que não foi pensando mas foi sentido e, por último, este comentário que ora escrevo não seriam, afinal, silenciosos indícios de alguma forma de modificação?
Rafael Quevedo.

Um filme inteligente,provocador e comovente( Durante a sessão, por duas vezes um cisco caiu no meu olho). O Filme que nos faz refletir sobre o lado obscuro da sociedade. Mas além disso ele nos mostra que diante de situações extremas as pessoas relevelam seu lado mais humano,surgindo o instinto de solidadariedade. Acredito que a lição que o filme nos passa, é que apesar de na vida cometermos muitos erros, o importante é as relações pessoais que construimos , os laços de amizade que formamos, em suma, extrairmos o que fizemos de bom na vida. Estou ansioso para o próximo filme...
ResponderExcluirDanilo, em outras vezes que assisti ao filme não caiu só um cisco no meu olho,mas uma ampulheta inteira, cheinha de areia... rs rs
ResponderExcluirAbraços.
Adorei o filme invasões bárbaras, pois é um filme que nos permiti refletir sobre uma série de questões importantes como o materialismo, o choque de gerações, a eutanásia, o amor filial, a amizade, a quebra de ideologias, a religião e a morte. Lembrei de Emily Dickinson e suas poesias que retratam alguns desses temas com muita paixão.
ResponderExcluirBem, acho importante repensarmos nossos conceitos e nossa sociedade, parabéns Quêvedo pela escolha do filme e pelo excelente trabalho, espero ansiosa a próxima sessão do cinema mais inteligente que já vi.
Daiane - 2ºPeríodo de Letras/ Noturno.
ResponderExcluirMaravilhoso!!! Pra quem pensa que no século XXI não existe mais catarse, precisa assistir "Invasões Bárbaras". Concordo perfeitamente com o Profº Rafael quando diz que mudamos ou melhor fomos "silenciados por indícios de mudança", os nossos pensamentos, os nossos sentidos deixaram de ser os mesmos naquela manhã de sábado.
28 de Outubro de 2010 17:45
"Meu papai,meu papai...Sentirei sua falta por toda minha vida... Sabe, o primeiro homem na vida de uma garota é seu pai. Para mim, você sempre será..." palavras apaixonadas da filha de Remy – Silvayne
ResponderExcluirO filme "As Invasões Bárbaras" realmente envolve e comove aqueles que ainda têm um coração que possa ser comovido.
Os diálogos são francos, e por isso algumas vezes deprimentes,os personagens viveram tentando fazer o melhor possível,lutando por 'utopias'individuais, mas assistiram o declínio de tudo aquilo que acreditaram.
Remy se torna incrédulo diante da barbarie humana e da hipocrisia da igreja.
Então diz que a idéia da morte é mais difícil porque ele não fez "nada grandioso" (não fez a tabela periódica, por exemplo), algo que marcasse sua existência.
Na realidade, a dor de saber que a morte é iminente, deve-se à certeza de que os anos vividos não mudaram em nada a história decadente da humanidade_ a sociedade é um caos irremediável, e tudo que se fez foi em vão, logo, 'minha' existência foi em vão_ Mas entre todos que viveram em torno de Remy, quem fez algo realmente grandioso?
Com a evolução da doença e a morte mais perto, remy reencontra e intensifica o contato dele com pessoas que lhe trazem vida, ele se resgata; vai aparecendo o brilho no olhar, a saudade dos bons momentos... mas a morte é inevitável a todos os homens, e todos são perfeitamente substituíveis na sociedade. então o que ficou?
"Foi um prazer viver na companhia de vocês, meus amigos..." diz 'Remy'em seu leito de morte, reconhecendo que o prazer da vida estava nas pessoas que o cercaram e não nos grandes feitos. Mudando ou não a vida daquelas pessoas, Remy foi 'alguém' na vida daquelas pessoas_ assim como o filme "As Invasões Bárbaras" foi algo em minha vida.
Afinal, como disse Renato Russo: "Não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a nós mesmos".
[apesar de alguns clichês, o filme é muito bom e valeu à pena assistir]
Arielle 4º período de Letras
Das Invasões
ResponderExcluirA arte nos torna pessoas melhores, nos torna pessoas, nos torna. O cinema é a melhor parte da vida que não faz parte dela. Comentar esta película é tarefa difícil, como também é difícil ficar silencioso dentro dela. Há coisas que revolvem várias vezes como se vontade própria tivessem. Não há muito que fazer, a não ser conviver com suas imagens, verbos e movimentos, que vão dando lugar ao pensamento e a palavra quase fraca, quase sem forças cai, pelo menos dentro da gente. Há tantos temas que vão da borda ao epicentro que qualquer elemento forte tira um quarto de hora de tema central. Se a despedida é um tema afinal, antes é um grande aceno do aguerrido e “hedonista” Remy. A única coisa que doamos para que possamos guardar o que realmente no fundo nos importa é o perdão. Tudo o mais é segundo plano, são coisas que poderiam ficar para depois, que poderiam nem ficar. Porém, para perdoar é preciso antes ser ferido, magoado, despedaçado com pequenas e grandes coisas. A vida acaba de surpresa, como queda de energia. Mal escutamos o estrondo e pronto, a luz se apaga. É raro ter o estranho privilégio de controlar esse acontecimento. O que faríamos se soubéssemos minutos antes, dias antes, meses antes de a luz se apagar que ela se apagaria por completo? Este filme está repleto disto, as pessoas têm tempo para rememorar e se despedir, para acalentar com um estranho festejo, para dar um beijo último como que se a vida nunca tivesse lhe cuspido a face. Há tempo para dizer eu te amo e dizer adeus. O que a mim invalida qualquer tentativa de julgamento moral é a própria vida de Remy. Por um preço que os outros pagaram por ele, ela se fez rica em aventuras, amores, ternuras de um verão e experiências incontáveis. Sua vida e sua morte fazem parte de um mesmo acontecimento privilegiado. Morreu cercado de amores, da mesma sorte que viveu. É fato que pai morreria quase que sozinho não fosse o filho convocar a todos para lhe dar partida acompanhada, mas houve em toda película maior gesto de perdão? E se há uma vida vivida que está de partida e várias vidas ligadas a ela, há uma janela aberta que não se perdeu. Se há uma cascata de decadências é porque há vórtices iluminados com a flama da paixão. Não dá pra esquecer as últimas cenas na memória de Remy antes de fechar os olhos pela última vez. Tanta beleza e leveza na existência. Viver a vida artisticamente nos traz vidas melhores, nos traz vida, nos traz.
César Borralho