Em entrevista concedida ao Programa Roda Viva da TV Cultura, em 1996, o poeta Haroldo de Campos dizia que todo verdadeiro poeta digno desse nome deveria, de alguma forma, ser uma espécie de “designer da palavra” ou, dito de outra maneira: todo poema se caracteriza enquanto tal justamente pelo fato de que, nele, não é só a informação veiculada o que interessa, mas sim como essa informação se configura do ponto de vista da linguagem. Em suma: na poesia o significante “pesa” tanto quanto o significado.
O que pudemos assistir no último sábado foi a extensão desse princípio à linguagem cinematográfica. Em “Sexo por compaixão” os significantes (as imagens, as cores – ou a ausência delas – o figurino, a fotografia, a narrativa paralela da rádio-novela etc.) estão intimamente associados aos significados que servem de esteio ao filme. O filme de Laura Maña é a prova de que a função poética da linguagem, apesar do nome, não é exclusiva da poesia mas constitui o modo de ser de toda obra efetivamente artística.
O caráter poético do filme tornou-se ainda mais visível a partir do mais que aguçado faro estético do prof. José Neres. Numa abordagem atenta aos mais supostamente secundários meandros da significação fílmica (como, por exemplo, a posição em que o personagem empunha a vassoura) ficamos sabendo que, na verdadeira obra de arte, nada é aleatório ou gratuito e tudo funciona e colabora para o efeito artístico. Neres mostrou-nos como se deve proceder na análise de uma obra (seja um filme, um poema, uma canção etc.). Seu comentário foi analítico no sentido mais importante da palavra, aquele que se refere ao ato de separar, de seccionar as partes a fim de podermos observar melhor seu funcionamento dentro do todo.
Agradecemos mais uma vez ao Neres e a toda(o)s que se fizeram presentes na terceira edição do Cine Fama.
Até a próxima.
Rafael Quevedo.

